Crato e a obsessão pelos exames

Mai 19, 2013 Sem Comentários de

Crato e a obsessão pelos exames

por Manuel Rangel

Não há memória de um recuo tão grande e grave na educação no nosso país, como aquele a que assistimos, neste momento. Não se trata de um regresso ao “antes do 25 de abril”, como se costuma dizer, mas de um recuo ao “antes de Veiga Simão”.

A obsessão deste Ministro pelos exames, bem anunciada, de resto, na fase da sua campanha para Ministro, junto do PSD, senão fosse tão grave, seria caricata.
Advoga Crato que os exames (ou a falta deles) são o maior problema do nosso sistema educativo, sobretudo (imagine-se!), no ensino básico. Os exames são a garantia da seriedade e qualidade do sistema. Era, aliás, o primeiro objetivo “imediato” e “simples” que propunha para acabar com o “caos” na educação em Portugal, ao arrepio e na ignorância de tudo o que se sabe e se tem estudado sobre avaliação e exames, nos últimos anos.

Vejamos, então, ao seu estilo, alguns factos “simples”, na nossa história mais ou menos recente, que põem em causa esta fé desmesurada nos exames, como único ou maior garante da qualidade do ensino. Portugal, aliás, dadas as grandes e aceleradas mudanças das últimas décadas, é, em muitos casos, um laboratório vivo das mudanças no sistema educativo.

Assim, a potencialidade dos exames como instrumento de qualidade está bem patente no nosso sistema até 1974/75. A que nos conduziram os exames de 4ª classe e de admissão aos liceus e escolas técnicas, os exames de 2º, 5º e 7º anos, com provas orais e escritas? Foram capazes de construir um sistema da mais alta qualidade e eficácia? Bem pelo contrário, o que obtivemos foi uma população fracamente alfabetizada e letrada, uma sociedade pouco culta, pouco escolarizada e com baixíssimos níveis de formação!

Era esse sistema, total e perversamente centrado em exames e avaliações externas (tão ao gosto de Crato!), que determinava tudo o que se fazia na escola desde o primeiro dia de entrada, e que constituiu, talvez, um dos maiores desastres culturais que marcam ainda a nossa sociedade.

Dirão, certamente, que era a falta de qualidade e rigor dos exames, dos instrumentos de então – esses instrumentos sérios, rigorosos, fiáveis, infalíveis, base da fé de Crato!

Saltemos, então, no tempo, precisamente para a “era Crato”. O ano de 2012, já com o seu Ministério em pleno, trouxe-nos dois bons exemplos do rigor e infalibilidade dos exames: as Provas de Aferição do 4º ano e os exames de 9º ano.

Nas primeiras, os níveis A, a Matemática, desceram de 15,7% em 2011, para 3,4% em 2012 (tendo os níveis D, negativos, subido, respetivamente, de 19% para 39,6%). Num ano apenas!

No 9º ano, na prova intermédia de Matemática, realizada em maio, e que “prepara” para o exame, a média nacional foi a pior de sempre (31,1%), enquanto 3 meses depois, no exame final, a média foi das melhores de sempre – 54% – situando-se 10 pontos acima do ano anterior (44,4% em 2011)!

Estranho, não? Quem achava, no período de “campanha”, que era impossível os alunos melhorarem numa disciplina 2 valores de um ano para o outro (alegando tratar-se de “manipulação e falta de rigor”!), deveria ficar atónito perante tais resultados. Mas nada há de estranho, nestes resultados – há muito que tudo isto está dito e estudado: os limites, contingência e falibilidade dos exames. Só que, certamente, está em “eduquês”… o que não é legível para todos! Mais falíveis do que os alunos nos exames, só mesmo os próprios instrumentos que os avaliam!

E é, justamente, por isso, que países com sistemas educativos altamente desenvolvidos e resultados em exames internacionais indiscutíveis (e acima de qualquer suspeita!), dispensam estes instrumentos durante longos anos. Esses sabem que, para promover uma educação de maior qualidade para todos (o que eleva o nível de cada um), os exames estão longe de ser o único ou sequer o melhor instrumento.

A seleção feita através de exames pode ser outra e muito perigosa – embora seja certamente o modelo de alguns! A qualidade melhora-se através de um conjunto de outros instrumentos e estratégias. E, mais uma vez Portugal constitui um bom exemplo disso. Ou terá alguém, com um mínimo de discernimento e seriedade, a veleidade de considerar que a qualidade da educação é, hoje, em Portugal, menor do que era até 1974? Só na “conversa de café ou autocarro” – e esse é o aspeto mais preocupante da atual política educativa: numa atitude populista, transformou-se esse tipo de “conversa” em orientação da política educativa do país.

Vai-nos levar muito tempo a refazer tudo o que Crato está a desfazer!

P.S. Para além da questão de fundo aqui discutida, o que neste momento se está a passar com os exames de 4º ano, com aspectos de fundo a serem alterados e discutidos a menos de 2 meses da sua realização (tal como a deslocação dos alunos para outras escolas para a sua realização) é um escândalo e mais uma prova da improvisação e incompetência do atual Ministério. Mas isso seria um novo artigo.

In Jornal das Letras – 03-04-2013

Crato e a obsessão pelos exames, Exames de 4º ano – o regresso ao passado

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